A experiência digital como a principal vitrine das marcas de luxo

A construção do desejo começa antes da visita a loja física da marca. Para as marcas de luxo, a presença digital precisa expressar a mesma atenção, identidade e qualidade de serviço que distinguem a experiência presencial.

Por Valéria Bitencourt

A relação com uma marca de luxo pode começar no detalhe de uma imagem, na descoberta de uma coleção ou na história de uma peça. Antes do encontro com a consultora da marca, o cliente pode ter pesquisado materiais, observado acabamentos e formado expectativas sobre o que encontrará na loja.

Nesse percurso, o ambiente digital participa da construção da percepção de valor. Sua linguagem, sua organização e a qualidade das informações revelam como a marca deseja ser compreendida. Para quem a visita, cada interação antecipa uma promessa de atendimento que deverá ser confirmada ao longo da jornada.

É sob essa perspectiva que o e-commerce e a comunicação digital devem ocupar a agenda estratégica das maisons: como espaços de descoberta e relacionamento, capazes de influenciar uma decisão cuja conclusão pode acontecer em qualquer canal.

A escolha se torna mais criteriosa

A atualização de junho de 2026 do estudo Bain-Altagamma estimou o mercado global de bens pessoais de luxo em € 358 bilhões em 2025. Para 2026, seu cenário-base projetava crescimento de 2% a 4%, alcançando entre € 365 bilhões e € 373 bilhões. São projeções que sinalizam estabilização, acompanhada por mudanças nas expectativas dos consumidores.

O estudo True-Luxury Global Consumer Insights 2026, do BCG com a Altagamma, ouviu mais de 10 mil consumidores. Design e estética, qualidade de execução e apelo duradouro apareceram como os principais fatores associados à compra mais recente. Ao mesmo tempo, 70% dos respondentes relataram ter desistido de uma compra por considerar o preço injustificado.

Savoir-Fair

Savoir-Fair

Minha leitura é que a experiência digital precisa tornar os atributos da criação perceptíveis. Comunicação visual que revelam textura e proporção, informações sobre materiais e conteúdo sobre o trabalho artesanal ajudam o cliente a compreender a proposta de valor. A apresentação deve ser tão criteriosa quanto a seleção das peças expostas na loja.

A Hermès oferece uma referência desse cuidado. Na página dedicada à edição de Istambul do Hermès in the Making, realizada em 2025, a maison apresenta técnicas e conhecimentos de seus artesãos, vinculados a demonstrações, oficinas e filmes. O conteúdo explica processos de fabricação e aproxima o público do universo que dá origem aos objetos.

Esse exemplo permite observar como a narrativa digital pode conferir profundidade à descoberta: a peça é apresentada com contexto, autoria e conhecimento de execução.

A descoberta digital ganha novos interlocutores

A pesquisa do consumidor também passa a incluir ferramentas de inteligência artificial. No estudo da Bain & Company com o Comité Colbert, publicado em junho de 2026, 47% dos compradores que concluíram sua compra de luxo em loja física disseram ter usado IA durante a jornada. Entre os consumidores de maior consumo, a proporção chegou a 82%. A pesquisa foi realizada em abril de 2026 com compradores na França, nos Estados Unidos e na China.

Entre os usuários de IA pesquisados, 64% recorreram à tecnologia para pesquisar produtos ou marcas e 60% para buscar inspiração ou orientação de estilo.

Esses resultados ampliam a compreensão da vitrine digital. A marca passa a ser descoberta e interpretada também por meio de recomendações e comparações produzidas fora de seus canais próprios. Por isso, a clareza das informações e a coerência da narrativa merecem atenção ao longo de toda a presença online.

Para as lideranças do setor, considero relevante preservar o que distingue a maison enquanto se aprimora a maneira de torná-la acessível à pesquisa. Informações sobre coleções, materiais, cuidados e serviços devem oferecer precisão suficiente para orientar a escolha e expressar a identidade da marca.

O consumidor brasileiro valoriza a entrega da promessa

No Brasil, a pesquisa Consumidor de Alta Renda, publicada pela Globo em parceria com a PiniOn em julho de 2026, aponta que, para a Classe A, o consumo de luxo é orientado pela satisfação pessoal. O estudo ressalta a importância da experimentação e do atendimento consultivo nas lojas físicas, além de identificar a exclusividade como um requisito desse universo.

O recorte de alta renda oferece uma perspectiva sobre esse público e não representa, por si só, todos os compradores de luxo no país. Ainda assim, traz uma indicação pertinente para as marcas:

A consistência da entrega tem papel central na relação com o cliente.

Essa leitura se insere em um mercado em expansão. O levantamento da Bain divulgado em outubro de 2025 estimou R$ 98 bilhões para o luxo brasileiro em 2024, com crescimento médio anual de 12% desde 2022. O total abrange diferentes segmentos, incluindo imóveis, automóveis e hotelaria, além de moda e itens pessoais.

Na estratégia digital, a oportunidade está em oferecer caminhos adequados à intenção de cada cliente. Uma pesquisa sobre joias pode conduzir a uma conversa sobre uma ocasião especial; o interesse por uma coleção pode evoluir para um atendimento previamente agendado. A tecnologia deve facilitar essa aproximação com a discrição e a atenção esperadas da marca.

A Louis Vuitton apresenta essa conexão em seu site brasileiro. A maison orienta o agendamento com um Client Advisor para descoberta de coleções, personalização e serviços como reparos, conforme a unidade. O cliente pode acessar o atendimento por Client Services, pela conta MyLV ou pelo localizador de lojas.

A relevância estratégica dessa iniciativa está na passagem organizada entre o interesse digital e o encontro presencial. O site oferece uma continuidade concreta para quem deseja conhecer melhor a marca.

A excelência se revela na continuidade do serviço

Uma experiência digital bem concebida precisa acompanhar o ritmo e as necessidades do cliente. O design deve expressar os códigos da maison; a navegação, facilitar a descoberta; e a velocidade, preservar a fluidez da interação. Imagens e conteúdo devem oferecer segurança sobre proporções, materiais e acabamento, mantendo o cuidado editorial.

Quando há intenção de compra, a disponibilidade precisa ser confiável. A escolha entre concluir o pedido online e conversar com um consultor deve ser simples. Checkout, entrega e pós-venda precisam manter o mesmo nível de precisão apresentado nas etapas anteriores.

O cuidado permanece relevante após a aquisição. No site do Reino Unido, a Burberry apresenta serviços de aftercare para conservação e reparo de peças, além de agendamentos com consultores. Trata-se de uma oferta daquele mercado, cuja disponibilidade deve ser verificada por região.

Essa presença digital prolonga o acesso ao serviço e evidencia uma dimensão essencial do luxo: a relação com o objeto e com a marca pode se desenvolver durante muitos anos.

Uma responsabilidade estratégica da marca

Na minha experiência com estruturação e crescimento de canais digitais, a qualidade percebida pelo cliente depende do alinhamento entre a proposta comercial e a operação que a sustenta. No luxo, esse alinhamento merece atenção da liderança porque cada interação participa da reputação da marca.

Contextualizo cinco pilares que orientam o meu direcionamento de uma estratégia digital de sucesso para as marcas:

Cultura, finanças, comercial e branding, operações e tecnologia.

O alinhamento e construção desses pilares ajudam a organizar essa responsabilidade. A narrativa precisa encontrar respaldo em estoque confiável, equipes preparadas, informações consistentes e processos de atendimento bem definidos.

O histórico de relacionamento pode apoiar o consultor na preparação de uma seleção pertinente, respeitando autorização e privacidade. A integração entre canais pode facilitar reservas, localização de peças e acompanhamento de solicitações. A governança deve reconhecer a contribuição conjunta do digital e da loja para a venda e para a fidelização.

Essa contribuição também precisa ser mensurada. Receita e margem devem ser observadas junto a agendamentos, vendas assistidas, recompra e qualidade do atendimento, com critérios que evitem duplicidade na atribuição dos resultados.

A experiência digital se consolida como uma das principais vitrines do luxo ao permitir que o cliente conheça a criação, reconheça o valor da marca e encontre um caminho para aprofundar a relação. Quando esse primeiro contato se desenvolve com a mesma atenção oferecida no ponto de loja físico, a excelência deixa de depender do lugar em que a compra acontece e passa a acompanhar o cliente.

Valéria Bitencourt

Valéria Bitencourt

Autora: Valéria Bitencourt Consultoria
Com mais de 20 anos de experiência em comércio eletrônico, transformação digital e gestão de canais de vendas, Valéria Bitencourt é consultora estratégica especializada na estruturação, profissionalização e crescimento de canais digitais B2B e B2C para indústrias, empresas familiares e varejistas.


The Digital Experience as the Primary Showcase for Luxury Brands

The creation of desire begins long before a customer visits a brand’s physical store. For luxury brands, their digital presence must reflect the same level of attention, identity, and service excellence that define the in-store experience.

By Valéria Bitencourt, digital channels strategy consultant with over 20 years of experience in e-commerce and digital transformation.

A relationship with a luxury brand may begin with the smallest detail in an image, the discovery of a collection, or the story behind a particular piece. Before meeting a brand’s client advisor, a customer may have already researched materials, examined finishes, and formed expectations about what they will encounter in-store.

Throughout this journey, the digital environment plays an important role in shaping the perception of value. Its language, structure, and quality of information reveal how the brand wishes to be perceived. For visitors, every interaction anticipates a promise of service that must be fulfilled throughout the customer journey.

From this perspective, e-commerce and digital communication deserve a central place on the strategic agenda of luxury maisons: as spaces for discovery and relationship-building, capable of influencing purchasing decisions that may ultimately be completed through any channel.

Purchasing Decisions Become More Discerning

The June 2026 update of the Bain-Altagamma study estimated the global personal luxury goods market at €358 billion in 2025. For 2026, its baseline scenario projected growth of 2% to 4%, reaching between €365 billion and €373 billion. These projections point to market stabilization, accompanied by evolving consumer expectations.

The True-Luxury Global Consumer Insights 2026 study, conducted by BCG in partnership with Altagamma, surveyed more than 10,000 consumers. Design and aesthetics, craftsmanship quality, and lasting appeal emerged as the leading factors influencing their most recent purchases. At the same time, 70% of respondents reported having abandoned a purchase because they considered the price unjustified.

My interpretation is that the digital experience must make the attributes of craftsmanship tangible. Visual communication that reveals texture and proportions, detailed information about materials, and content highlighting artisanal expertise help customers understand the brand’s value proposition. Digital presentation should be as carefully curated as the selection of pieces displayed in-store.

Hermès provides an example of this approach. On the page dedicated to the 2025 Istanbul edition of Hermès in the Making, the maison showcases its artisans’ techniques and expertise through demonstrations, workshops, and films. The content explains manufacturing processes and brings audiences closer to the world in which these objects are created.

This example illustrates how digital storytelling can add depth to the discovery process: each piece is presented through its context, craftsmanship, and the expertise behind its creation.

Digital Discovery Gains New Intermediaries

Consumer research is increasingly incorporating artificial intelligence tools. According to a study by Bain & Company and the Comité Colbert, published in June 2026, 47% of luxury shoppers who completed their purchases in physical stores reported using AI during their purchasing journey. Among the highest-spending luxury consumers, this proportion reached 82%. The survey was conducted in April 2026 among shoppers in France, the United States, and China.

Among the AI users surveyed, 64% used the technology to research products or brands, while 60% turned to it for inspiration or styling advice.

These findings broaden the concept of the digital showcase. Brands are increasingly discovered and interpreted through recommendations and comparisons generated beyond their own channels. As a result, clear information and consistent storytelling deserve attention across the entire online presence.

For industry leaders, I believe it is essential to preserve what makes each maison distinctive while improving how it can be discovered and researched. Information about collections, materials, product care, and services must be sufficiently accurate to guide purchasing decisions while expressing the brand’s identity.

Brazilian Consumers Value the Fulfillment of Brand Promises

In Brazil, the High-Income Consumer study, published by Globo in partnership with PiniOn in July 2026, indicates that luxury consumption among Class A consumers is driven by personal satisfaction. The study highlights the importance of product experiences and personalized, consultative service in physical stores, while also identifying exclusivity as a defining expectation within the luxury segment.

The study's focus on high-income consumers provides insight into this audience but does not, in itself, represent all luxury buyers in Brazil. Nevertheless, it offers an important consideration for brands:

Consistently delivering on the brand promise plays a central role in building customer relationships.

This perspective emerges within an expanding market. A Bain study released in October 2025 estimated Brazil’s luxury market at BRL 98 billion in 2024, with average annual growth of 12% since 2022. The figure encompasses several segments, including real estate, automobiles, hospitality, fashion, and personal luxury goods.

From a digital strategy perspective, the opportunity lies in creating pathways aligned with each customer’s intentions. An online search for jewelry may lead to a conversation about a special occasion, while interest in a particular collection may evolve into a scheduled private appointment. Technology should facilitate these interactions with the discretion and attentiveness expected from a luxury brand.

Louis Vuitton demonstrates this connection on its Brazilian website. The maison provides guidance on scheduling appointments with a Client Advisor to explore collections, personalization options, and services such as repairs, depending on the boutique. Customers can access these services through Client Services, their MyLV account, or the store locator.

The strategic relevance of this initiative lies in the seamless transition from digital interest to an in-person experience. The website provides a tangible continuation of the journey for customers seeking to engage more deeply with the brand.

Excellence Is Revealed Through Service Continuity

A well-designed digital experience must adapt to the customer’s pace and needs. Design should reflect the maison’s distinctive brand codes; navigation should facilitate discovery; and website performance should ensure a smooth, uninterrupted experience. Imagery and content must provide clarity regarding proportions, materials, and finishes while maintaining a carefully curated editorial approach.

When customers are ready to purchase, product availability must be reliable. Choosing between completing a purchase online and speaking with an advisor should be straightforward. Checkout, delivery, and after-sales service must maintain the same level of precision demonstrated throughout the earlier stages of the journey.

Care remains important long after a purchase. On its UK website, Burberry offers aftercare services for garment maintenance and repairs, as well as appointments with advisors. These services are offered in that market, and availability should be verified by region.

This digital presence extends access to customer service and highlights an essential dimension of luxury: the relationship with both the product and the brand can evolve over many years.

A Strategic Responsibility for the Brand

In my experience developing and scaling digital channels, the quality perceived by customers depends on the alignment between a brand’s commercial proposition and the operations supporting it. In luxury, this alignment deserves particular attention from leadership because every interaction contributes to the brand’s reputation.

I identify five pillars that guide my approach to developing a successful digital strategy for brands:

Culture, finance, commercial strategy and branding, operations, and technology.

Aligning and strengthening these pillars helps establish a framework for this responsibility. Brand storytelling must be supported by reliable inventory, well-prepared teams, consistent information, and clearly defined customer service processes.

Customer relationship history can help advisors prepare relevant, personalized selections while respecting consent and privacy. Integration across channels can facilitate reservations, product searches, and the tracking of customer requests. Governance structures should recognize the combined contribution of digital channels and physical stores to sales performance and customer loyalty.

This contribution must also be measured. Revenue and margins should be assessed alongside appointments, assisted sales, repeat purchases, and service quality, using criteria that prevent double-counting when attributing results.

The digital experience is establishing itself as one of luxury’s most important showcases, enabling customers to discover the craftsmanship behind a creation, recognize the brand’s value, and find meaningful ways to deepen their relationship with it.

When this initial interaction is developed with the same attention devoted to the in-store experience, excellence is no longer defined by where a purchase takes place. Instead, it becomes a consistent presence throughout the customer journey.

About the Author: Valéria Bitencourt Consulting

With over 20 years of experience in e-commerce, digital transformation, and sales channel management, Valéria Bitencourt is a strategic consultant specializing in the development, professionalization, and growth of B2B and B2C digital channels for manufacturers, family-owned businesses, and retailers.